Psicologia · Clínica · Ética

Antes de compreender o mundo do paciente, o terapeuta precisa compreender o seu: cosmovisão, consciência e ética na prática psicológica

A visão de mundo do terapeuta também participa da escuta. O que isso exige da prática clínica?

Por Caio Fábio Martins ·

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Imagem ilustrativa criada com IA; não representa pessoas ou eventos citados.

Um psicólogo não entra na clínica sem história. Sua formação, cultura, valores e experiências influenciam as perguntas que faz e o que considera relevante numa conversa. Reconhecer isso não diminui o rigor do trabalho. Ajuda a perceber quando uma interpretação pode dizer mais sobre a lente do profissional do que sobre a pessoa atendida.

Essa é a questão que me interessa ao falar de cosmovisão: antes de tentar compreender o mundo do paciente, como examino o lugar a partir do qual o escuto?

O que chamamos de cosmovisão

No artigo Cosmovisão na Psicologia: uma análise do conceito na perspectiva junguiana e sua aplicação na saúde mental, Rebeca Furtado Silveira de Queiroz e Marcelo Coelho Almeida partem de uma definição de James W. Sire: cosmovisão envolve pressupostos sobre a realidade que orientam a maneira de viver. Alguns são conscientes; outros, pouco examinados.

Religião pode fazer parte dessa visão, mas não a esgota. Ideias sobre família, trabalho, autonomia, sexualidade, sofrimento e sentido também entram no modo como alguém interpreta suas experiências. O estudo de Queiroz e Almeida examina esse tema na perspectiva junguiana. As relações que estabeleço abaixo com outras abordagens são uma elaboração minha, não conclusões dos autores.

O terapeuta também participa da relação

Na discussão sobre a psicoterapia analítica, Queiroz e Almeida mostram que as convicções do paciente e do analista podem afetar o processo terapêutico. O texto propõe a humildade terapêutica como disposição para reconhecer os limites da própria visão de mundo e da própria atuação.

Isso tem uma consequência prática. Quando um paciente fala de fé, de uma escolha familiar ou de uma forma de viver que me é estranha, não basta localizar o tema numa teoria e seguir adiante. Preciso perguntar o que aquela experiência significa para ele, em seu contexto, e observar minhas reações antes de transformá-las em interpretação clínica.

O diálogo possível entre abordagens

Outras tradições psicológicas oferecem perguntas úteis, embora trabalhem com conceitos distintos. Abordagens cognitivas investigam crenças e esquemas que participam da interpretação dos acontecimentos. A Análise do Comportamento examina histórias de aprendizagem, linguagem, regras e práticas culturais. Perspectivas psicodinâmicas consideram processos que não se apresentam inteiramente à consciência; as fenomenológicas procuram descrever como a experiência é vivida.

Cosmovisão não é sinônimo de esquema cognitivo, repertório comportamental ou processo inconsciente. Aproximar essas perspectivas não significa fundi-las. A comparação é útil quando nos faz formular melhor uma pergunta clínica: como esta pessoa aprendeu a compreender o mundo desta maneira, e que lugar essa compreensão ocupa em sua vida?

Onde a própria lente pode limitar a escuta

Uma teoria ajuda a selecionar informações e a formular hipóteses; nenhuma dispensa a verificação dessas hipóteses no encontro com a pessoa. O ponto cego aparece quando o profissional toma sua interpretação inicial como medida da experiência do paciente, sobretudo diante de diferenças culturais, religiosas ou morais.

As Diretrizes Multiculturais da APA convidam a considerar contexto, identidades e interseccionalidades na prática psicológica. Para mim, esse cuidado começa por uma pergunta sobre o próprio trabalho: o que sei desta pessoa, o que estou supondo e o que ainda preciso compreender? Supervisão, estudo e abertura à correção ajudam a manter essa pergunta viva.

Uma exigência ética, não uma licença para impor valores

Considerar a cosmovisão do paciente não exige concordar com todas as suas ideias nem substituir seu julgamento pelo meu. Exige respeitar sua dignidade e trabalhar dentro dos limites técnicos e éticos da profissão. A Resolução CFP nº 7/2023 orienta a atenção às dimensões da religiosidade e da espiritualidade, bem como às vivências não religiosas, preservando o caráter laico do exercício profissional e vedando a indução de crenças.

Se minhas convicções ou minha preparação dificultam a escuta, a resposta responsável é reconhecer o limite, buscar supervisão e formação e avaliar, quando necessário, o encaminhamento adequado sem abandonar o cuidado com a pessoa. A autoridade profissional não autoriza converter o paciente a uma religião, ideologia ou concepção particular de vida.

Uma pergunta que vale levar para a formação

Conhecer a própria cosmovisão não elimina vieses. Torna possível examiná-los. A pergunta não é apenas “qual é a visão de mundo do paciente?”, mas também “como minha visão de mundo participa do que estou vendo, perguntando e deixando de perguntar?”.

Há rigor em reconhecer essa diferença. No encontro clínico, duas histórias se encontram, mas a responsabilidade técnica não se distribui igualmente. Cabe ao psicólogo usar o conhecimento que possui sem transformar silenciosamente sua própria vida em padrão para a vida do outro.

Caio Fábio Martins
Psicólogo · Professor universitário · CRP 09/10676

Referências para aprofundar

As aproximações entre abordagens são reflexões do autor. O estudo de Queiroz e Almeida examina a cosmovisão na perspectiva junguiana.

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