PSICOTERAPIA · RELAÇÃO

O encontro terapêutico na abordagem humanista existencial

Por Caio Fábio Martins ·

Quem procura psicoterapia leva mais do que um conjunto de sintomas. Leva uma maneira singular de compreender o mundo, uma história de relações e expectativas sobre o que poderá acontecer ao falar de si. O primeiro trabalho do terapeuta é criar condições para que essa experiência possa ser examinada com rigor e respeito.

Em seu artigo de 1957, Carl Rogers formulou a hipótese de que a mudança terapêutica depende de condições presentes na relação, entre elas a autenticidade do terapeuta, a compreensão empática e a consideração positiva incondicional, percebidas pela pessoa atendida. Trata-se de uma proposição teórica influente, sujeita à investigação e ao debate; não de uma garantia de resultado em todo atendimento. Escutar com empatia não é concordar com tudo. É procurar compreender o sentido do que é dito sem substituir a perspectiva da pessoa pela do profissional.

Cena ilustrativa relacionada ao tema: O encontro terapêutico na abordagem humanista existencial
Imagem ilustrativa criada com IA; não representa pessoas ou eventos citados.

A Gestalt-terapia, apresentada por Perls, Hefferline e Goodman (1951), acrescenta atenção ao contato e ao modo como a experiência se organiza na relação com o ambiente. Isso inclui palavras, silêncios, emoções e situações concretas da vida, sem presumir que um gesto isolado revele uma verdade oculta. Uma pergunta sobre o que está acontecendo agora pode aproximar a pessoa de uma percepção relevante; seu valor depende do contexto e do momento da conversa.

Há também um dado empírico que ajuda a calibrar a importância do vínculo. Em uma metanálise de 295 estudos independentes, Flückiger e colaboradores (2018) encontraram associação positiva entre aliança terapêutica e resultados da psicoterapia em adultos, em diferentes abordagens. Associação não demonstra que o vínculo, sozinho, cause a melhora. Ainda assim, o achado sustenta atenção à colaboração, à confiança e à possibilidade de conversar sobre desacordos no processo.

Uma prática humanista existencial não dispensa formação técnica, avaliação cuidadosa ou limites profissionais. Acolhimento sem direção pode deixar questões relevantes sem investigação; uma técnica aplicada sem escuta pode reduzir a pessoa a um protocolo. O trabalho clínico exige formular hipóteses, revisá-las à luz do que aparece e reconhecer quando outras formas de cuidado são necessárias.

Na terapia, compreender alguém não é dizer quem essa pessoa deveria ser. É oferecer uma relação em que possa examinar sua experiência, reconhecer condições que a limitam e experimentar modos possíveis de responder à vida. Nenhuma abordagem elimina a complexidade humana. Uma boa relação terapêutica permite que ela seja tratada com seriedade.

Caio Fábio Martins
Psicólogo · Professor universitário · CRP 09/10676

Referências

ROGERS, Carl R. The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change. Journal of Consulting Psychology, v. 21, n. 2, p. 95–103, 1957. Registro na PubMed. PERLS, Frederick S.; HEFFERLINE, Ralph F.; GOODMAN, Paul. Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality. New York: Julian Press, 1951. Registro bibliográfico. FLÜCKIGER, Christoph et al. The alliance in adult psychotherapy: a meta-analytic synthesis. Psychotherapy, v. 55, n. 4, p. 316–340, 2018. Resumo e DOI.

← Voltar ao Blog