GESTALT-TERAPIA · RELAÇÕES · EXISTÊNCIA
Precisamos do outro para saber quem somos
Reflexões a partir da conferência de Ximo Tárrega Soler no I Congresso Internacional e IV Congresso Mineiro de Gestalt-terapia
Talvez uma das ilusões mais persistentes do nosso tempo seja a ideia de que amadurecer significa precisar cada vez menos dos outros.
Ser forte seria não depender. Ser autônomo seria não pedir. Ser seguro seria não precisar ser reconhecido. E ser adulto, no limite dessa lógica, seria conseguir bastar a si mesmo.
A conferência de Ximo Tárrega Soler, no Congresso Internacional e Mineiro de Gestalt-terapia realizado na UFMG, provocou em mim justamente a reflexão contrária: não nos tornamos plenamente humanos apesar do outro. Tornamo-nos humanos na relação com o outro.
Essa não é apenas uma ideia bonita sobre relacionamentos. Ela toca uma questão fundamental da Gestalt-terapia: não é possível compreender uma pessoa isolando-a de seu campo.
Ximo já havia desenvolvido essa perspectiva em seu texto Da autossuficiência à interdependência. Ali, recuperando a teoria do self e diferentes autores, sustenta que organismo e ambiente não podem ser compreendidos separadamente. É no contato que nos transformamos e também transformamos o mundo. (Gestalt SP)

O outro participa daquilo que descubro sobre mim
Uma das ideias que mais permaneceram comigo depois da conferência poderia ser resumida assim:
é também pelo impacto do outro em mim que descubro quem sou.
Não somos identidades prontas que simplesmente entram em relacionamentos.
Há dimensões de nós que aparecem justamente porque alguém nos encontra, nos olha, nos solicita, nos confronta, nos acolhe ou nos reconhece.
Por isso, talvez possamos inverter uma pergunta muito comum.
Em vez de perguntar apenas:
“Quem sou eu independentemente dos outros?”
podemos também perguntar:
“O que de mim só pôde aparecer porque alguém esteve diante de mim?”
Ximo recupera uma perspectiva intersubjetiva na qual a presença do outro não é necessariamente uma ameaça à individualidade. O outro também participa de sua constituição. Em seu texto, ele contrapõe a autossuficiência à interdependência: uma relação recíproca na qual autonomia e necessidade do outro não precisam ser inimigas. (Gestalt SP)
Isso tem consequências profundas para a psicoterapia.
A presença do terapeuta precisa permitir que o outro apareça
Quando falamos da presença do terapeuta, talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
“O que o terapeuta fará?”
Mas:
“Que pessoa o cliente consegue ser quando está diante desse terapeuta?”
A relação terapêutica pode constituir um campo no qual experiências antes impossíveis se tornam possíveis.
Ser escutado.
Ser considerado.
Discordar e continuar pertencendo.
Expressar uma necessidade sem ser humilhado.
Ser percebido sem precisar desempenhar um personagem.
Receber cuidado.
Produzir impacto sobre alguém.
Descobrir que sua presença importa.
Nesse sentido, conectar-se com o terapeuta não significa simplesmente criar dependência do terapeuta. Pode significar experimentar, dentro daquela relação, novas maneiras de conectar-se consigo mesmo e com o mundo.
O terapeuta não entrega ao paciente uma identidade pronta.
Ele participa de uma relação na qual determinadas possibilidades podem finalmente aparecer.
Pedir também é oferecer algo ao outro
Essa talvez tenha sido uma das ideias mais bonitas da conferência.
Temos enorme dificuldade em pedir.
Pedir parece revelar falta. Dependência. Fragilidade.
Preferimos frequentemente esperar que o outro descubra sozinho aquilo de que necessitamos. E, quando ele não descobre, experimentamos frustração e solidão.
Ximo propõe outra compreensão.
Em seu texto sobre interdependência, afirma que saber pedir envolve confiança e maturidade. Ao explicitar uma necessidade, comunico ao outro que ele é importante para mim e que o considero alguém capaz de responder — inclusive de dizer não. (Gestalt SP)
Por isso, pedir pode ser compreendido também como uma oferta.
Quando lhe apresento meu desejo, ofereço a você a possibilidade de ocupar um lugar singular diante de mim.
“Preciso de você.”
“Quero sua presença.”
“Você pode me ajudar?”
“Gostaria que estivesse comigo.”
Existe vulnerabilidade nessas frases.
Mas existe também reconhecimento.
Seu pedido pode fazer com que o outro descubra algo sobre si: que é capaz de cuidar, ajudar, acolher, ensinar, proteger ou simplesmente permanecer presente.
E quando nunca pedimos?
O outro talvez nunca tenha a oportunidade de conhecer certas regiões de nós.
Podemos estar cercados de pessoas e, ainda assim, experimentar uma profunda solidão.
A dor de nunca estar incluído na palavra “todos”
Há pessoas que aprenderam muito cedo a não precisar.
Cuidam.
Resolvem.
Produzem.
Ajudam.
Protegem.
Mas raramente permitem que alguém faça o mesmo por elas.
A autossuficiência pode parecer força enquanto, algumas vezes, esconde uma história em que depender foi perigoso, frustrante ou decepcionante.
Ximo chama atenção justamente para pessoas que sofrem tentando resolver individualmente aquilo que nasceu e continua existindo no campo das relações. Em seu texto, chega a discutir pessoas que cuidam intensamente dos demais enquanto apresentam grande dificuldade para reconhecer e pedir aquilo de que elas próprias necessitam. (Gestalt SP)
Talvez uma das dores do individualismo seja esta:
jamais conseguir sentir-se incluído quando alguém diz “todos nós”.
Há sempre “as pessoas” de um lado e “eu” do outro.
Mas aqueles que insistem em viver completamente sozinhos podem perder algo precioso: a possibilidade de experimentar a presença do outro também como reparação.
As sete necessidades que apontam para o outro
Aqui encontrei a referência que estava faltando em minhas anotações.
Ximo recorre ao psicólogo norte-americano Gershen Kaufman, que descreveu necessidades interpessoais básicas. O ponto decisivo está no próprio nome: são interpessoais. Portanto, não podem ser plenamente pensadas sem a presença de outras pessoas. (Gestalt SP)
Ximo organiza sete delas:
- Relação.
Precisamos estabelecer relações nas quais exista interesse e reciprocidade e nas quais possamos experimentar que somos especiais para alguém. - Toque e abraço.
O contato físico pode comunicar ternura, proteção, segurança e cuidado. Evidentemente, no contexto clínico, isso exige consideração ética, técnica, cultural e dos limites particulares de cada pessoa. - Identificação.
Precisamos encontrar pessoas que possam funcionar como referências. Modelos com os quais nos identificamos ajudam a atravessar situações desconhecidas e a construir possibilidades para nós mesmos. - Diferenciação.
Pertencer não significa desaparecer. Depois de experimentar identificação e pertencimento, precisamos também descobrir nossas diferenças, valores e singularidades. - Cuidar.
Não necessitamos apenas receber cuidado. Também há uma necessidade humana de oferecer, ajudar, confortar e perceber que temos algo de valor para entregar ao outro. - Afirmação.
Precisamos ser reconhecidos, valorizados e confirmados. Não se trata simplesmente de elogio, mas da experiência de que nossa existência e aquilo que oferecemos encontram resposta no mundo. - Poder.
Aqui “poder” não significa controlar a vida de outra pessoa. Kaufman o relaciona à possibilidade de produzir impacto no ambiente, influenciar e ser escutado. É experimentar que posso assumir minha própria vida e que minha ação faz diferença. (Gestalt SP)
Repare que nenhuma dessas necessidades descreve um ser humano fechado em si mesmo.
Todas apontam para uma fronteira.
Para um encontro.
Para um eu diante de um você.
Precisamos de alguém que nos reconheça
Durante a conferência, pensei em Cinderela.
Podemos conhecer todas as qualidades da personagem. Podemos dizer que é inteligente, bonita, sensível ou capaz.
Mas há um elemento decisivo no conto: em determinado momento, alguém a vê de uma maneira diferente daquela pela qual ela havia aprendido a se enxergar.
A metáfora interessa à psicoterapia.
Uma pessoa pode acumular conquistas e ainda não conseguir apropriar-se delas.
Pode ser amada e não se sentir digna de amor.
Pode ser competente e experimentar seus próprios sucessos como se fossem acidentes.
Pode receber reconhecimento e permanecer incapaz de reconhecê-lo.
Nesse caso, a questão terapêutica talvez não seja simplesmente convencer alguém:
“Você tem valor.”
A relação precisa permitir uma experiência na qual esse valor possa ser vivido.
Antes de conseguirmos sustentar internamente algumas experiências, muitas vezes alguém precisou sustentá-las conosco.
Ximo chega a uma formulação importante ao discutir autoestima: aquilo que depois chamamos de autoestima também se constitui relacionalmente; antes de conseguirmos reconhecer nosso próprio valor, fomos — ou necessitamos ser — reconhecidos por alguém. (Gestalt SP)


A ternura como posição diante do humano
Talvez seja aqui que a palavra ternura ganhe sua maior força.
Ternura não é sentimentalismo.
É uma forma de presença.
É uma preocupação emocional profunda com outro ser humano precisamente porque ele é único.
Ximo tem trabalhado explicitamente a relação entre ternura e violência em sua produção recente, e sua trajetória clínica e formativa está fortemente vinculada a uma Gestalt-terapia relacional e de campo. (Gestalt Humanista)
Na clínica, isso significa encontrar alguém sem reduzi-lo ao diagnóstico, ao sintoma ou àquilo que ainda não conseguiu realizar.
Significa oferecer uma relação suficientemente segura para que ele possa aparecer.
E talvez uma das maiores possibilidades da psicoterapia esteja exatamente aí.
Não fabricar uma pessoa nova.
Não ensinar alguém a não precisar de ninguém.
Mas ajudá-lo a experimentar formas mais livres, maduras e recíprocas de estar com os outros.
Autonomia não é autossuficiência
Essa distinção talvez sintetize toda a reflexão.
Ser autônomo não significa não precisar de ninguém.
Ximo chama atenção para a diferença entre autoapoio e autossuficiência. Uma pessoa autônoma pode reconhecer seus recursos e assumir responsabilidade pela própria existência sem negar que continuará necessitando daquilo que não é ela. (Gestalt SP)
Amadurecer, portanto, talvez não seja caminhar da dependência para a independência absoluta.
Pode ser caminhar para uma interdependência mais consciente.
Eu posso existir sem possuir você.
Posso precisar sem exigir.
Posso pedir sem manipular.
Posso receber sem me diminuir.
Posso cuidar sem controlar.
Posso pertencer sem desaparecer.
Posso diferenciar-me sem romper todos os vínculos.
E posso descobrir que precisar de alguém não é necessariamente evidência de fracasso.
Às vezes é simplesmente evidência de humanidade.
Porque há coisas que só descobrimos quando encontramos alguém.
Há partes de nós que só aparecem diante de determinados encontros.
E talvez uma das experiências humanas mais profundas seja esta:
descobrir que o outro não apenas está diante de mim — sua presença também participa da possibilidade de eu me tornar quem sou.
Caio Fábio Martins
Psicólogo · Professor · Pesquisador
Reflexões a partir do I Congresso Internacional e IV Congresso Mineiro de Gestalt-terapia — UFMG, Belo Horizonte, 2026.
