GESTALT-TERAPIA · ENFRENTAMENTO · EXISTÊNCIA
Quando o sofrimento se movimenta, novas possibilidades aparecem
Na fala de Karina Fukumitsu, uma ideia atravessou muitas das reflexões que anotei: aquilo que vivemos importa, mas também importa profundamente a maneira como direcionamos nossas possibilidades de enfrentamento diante do que nos acontece. Não escolhemos tudo o que chega até nós, mas continuamos convocados a decidir o que faremos com aquilo que nos atravessou. Em uma chave existencial próxima à de Sartre, poderíamos dizer que não somos simplesmente aquilo que aconteceu conosco; somos também aquilo que fazemos a partir do que aconteceu.
Há nisso uma responsabilidade que não deve ser confundida com culpa. A existência não nos oferece controle absoluto, mas nos oferece possibilidades de posicionamento. E posicionar-se exige reconhecer necessidades. Uma frase simples, mas poderosa, apareceu nesse percurso: se você não comunica, ninguém poderá conhecer verdadeiramente sua necessidade. Muitas vezes esperamos que o outro perceba, adivinhe ou antecipe aquilo que sentimos, enquanto o silêncio vai produzindo distância. A necessidade, quando reconhecida e comunicada, também pode se transformar em força criativa. Não por acaso, tantas inovações humanas nasceram de uma falta, de uma dificuldade, de algo que precisou encontrar uma nova forma de ser enfrentado.

A Psicologia, especialmente quando olhada a partir da teoria de campo, nos lembra que aquilo que acontece conosco não pode ser compreendido isolando a pessoa de seu contexto. Somos atravessados por relações, histórias, ambientes, experiências anteriores e pelas condições concretas do momento presente. O sofrimento não existe no vazio. Há sempre um campo em funcionamento. E, na tradição cristã, encontramos também uma compreensão de que mesmo experiências difíceis podem ser integradas a uma história maior, como expressa a conhecida afirmação de Romanos de que todas as coisas podem cooperar para o bem daqueles que amam a Deus. Isso não transforma dor em algo desejável, nem elimina o sofrimento. Mas introduz a possibilidade de que a experiência dolorosa não precise possuir a palavra final.
Talvez o campo da existência seja exatamente o lugar em que somos chamados a decidir. Karina trouxe uma imagem muito concreta: quando a carroça se movimenta, as abóboras vão encontrando novas posições. Às vezes, é o próprio movimento que permite uma nova acomodação. Há sofrimentos que parecem absolutamente imóveis enquanto permanecemos paralisados diante deles. Quando conseguimos colocar algum movimento na experiência — falar, pedir ajuda, mudar uma atitude, estabelecer um limite, buscar tratamento, reconstruir uma relação ou simplesmente dar o próximo passo possível — nossa percepção também começa a se reorganizar.
Isso não significa fugir das partes difíceis da própria história. Pelo contrário. Há uma imagem frequentemente associada ao pensamento junguiano que expressa bem essa realidade: uma árvore não alcança grandes alturas sem aprofundar também suas raízes. Crescer não significa negar as regiões dolorosas da existência. Significa desenvolver recursos para visitá-las sem permitir que se tornem toda a nossa identidade.
Por isso me chamou atenção uma possibilidade de resposta diante de alguém que diz: “estou completamente perdido”. Talvez, algumas vezes, a questão não seja simplesmente estar perdido, mas estar afastado de si mesmo. E há uma diferença importante entre as duas coisas. Quem está definitivamente perdido parece não ter caminho; quem está afastado pode começar um processo de reencontro.
Esse reencontro também passa por abandonar algumas ilusões. A carência, por exemplo, pode alterar profundamente nossa leitura das relações. Quando estamos desesperadamente necessitados de afeto, aprovação ou pertencimento, podemos interpretar pequenos sinais como provas de um amor que, na realidade, não está presente. Por isso, conhecer as próprias necessidades é também uma forma de proteção. Não para deixar de amar, mas para aprender a reconhecer onde existe reciprocidade, cuidado e compromisso reais.

Outro ponto importante foi pensar a força das histórias que recebemos antes mesmo de compreendê-las. A Psicologia conhece bem os processos de transmissão psíquica transgeracional: padrões relacionais, medos, formas de lidar com conflitos e experiências familiares podem atravessar gerações. Contudo, reconhecer uma herança não significa transformá-la em destino. Passado não é destino. Aquilo que recebemos influencia nossa trajetória, mas não determina completamente aquilo que construiremos.
É nesse ponto que talvez faça mais sentido sustentar a pergunta pelo “para quê?” do que permanecer indefinidamente preso ao “por quê?”. O “por quê?” pode ajudar a compreender origens e causas. Mas há momentos em que precisamos avançar para outra pergunta: diante disso tudo, para quê continuar? Para quê escolher? Para quê reconstruir? Para quê suportar este momento?
A esperança também precisa de memória. Em alguns momentos da vida, ser forte não significa sentir-se invulnerável. Significa conseguir recordar aquilo que ainda traz esperança. Para quem encontra nas Escrituras uma referência de fé, essa memória pode ser também espiritual: reaprender aquilo que já sabemos, retornar a palavras que sustentaram gerações e recordar que o sofrimento presente não resume toda a existência.
Essa discussão ganha uma dimensão especialmente séria quando falamos de sofrimento intenso e de suicídio. Uma pessoa em sofrimento suicida não deve ser reduzida à ideia de fraqueza, incompetência ou falta de vontade. Há dores que temporariamente ultrapassam os recursos que alguém consegue acessar sozinho. Nesses momentos, talvez uma das mensagens mais importantes seja: você não precisa antecipar o fim da sua história. O fato de hoje parecer impossível carregar determinado peso não significa que ele permanecerá igualmente pesado para sempre. Com apoio, tratamento, vínculos e estratégias de enfrentamento, aquilo que parecia impossível de sustentar pode encontrar novas formas de ser carregado.
Talvez seja justamente isso que boas estratégias de enfrentamento possibilitam: não necessariamente retirar imediatamente todo o peso, mas ajudar a pessoa a dizer, em algum momento, “agora eu consigo carregá-lo de outra maneira”.
Somos, de alguma forma, guardiões da vida quando ajudamos alguém a permanecer, quando comunicamos nossas próprias necessidades, quando oferecemos presença sem tentar controlar o caminho do outro e quando lembramos que nenhum sofrimento precisa constituir sozinho toda a identidade de uma pessoa.
Saio dessa reflexão pensando que amadurecer talvez seja menos sobre eliminar tudo aquilo que nos feriu e mais sobre transformar nossa relação com essas experiências. Eu existo. Minha história aconteceu. Algumas coisas não poderiam ter acontecido de outra forma. Outras ainda poderão ser transformadas. E, diante delas, continuo podendo perguntar: o que farei agora com aquilo que aconteceu comigo?
Talvez seja aí que a existência volte a se abrir.



Registro e reflexões a partir da conferência de Karina Fukumitsu durante o I Congresso Internacional de Gestalt-Terapia e IV Congresso Mineiro de Gestalt-Terapia, realizado em Belo Horizonte (MG), em setembro de 2026.
Caio Fábio Martins
Psicólogo · CRP 09/10676
Professor universitário · Mestre e Doutorando em Psicologia
