GESTALT-TERAPIA · TEMPO · CUIDADO

Tempo da terapia: quando estar junto também é parte do cuidado

Por Caio Fábio Martins ·

Participar do I Congresso Internacional de Gestalt-Terapia e IV Congresso Mineiro de Gestalt-Terapia, em Belo Horizonte, foi também uma oportunidade de reencontrar uma pergunta fundamental para a clínica: afinal, o que fazemos com o tempo quando estamos diante de outra pessoa?

Na conferência “Tempo da Terapia”, com Jan Roubal, uma das reflexões que mais me atravessou foi compreender a psicoterapia como uma possibilidade de estarmos juntos, integrarmos e assimilarmos experiências. Em uma época marcada pela velocidade, talvez parte do sofrimento contemporâneo esteja justamente no excesso de nutrição: recebemos informações, estímulos, opiniões, conteúdos e respostas continuamente, mas quase não encontramos tempo para digerir aquilo que recebemos.

Vista do auditório durante a participação remota de Jan Roubal na conferência.
Registro da conferência “Tempo da Terapia”, com Jan Roubal, em Belo Horizonte.

Somos muito alimentados e pouco nutridos.

A assimilação exige tempo. É ela que permite que uma experiência deixe de ser apenas algo que nos aconteceu e passe a compor o chão que nos sustenta. Nesse sentido, a psicoterapia pode oferecer algo cada vez mais raro: um espaço em que não precisamos imediatamente produzir uma nova resposta, mas podemos permanecer tempo suficiente diante da experiência para que alguma integração aconteça.

Uma imagem utilizada durante a reflexão me parece especialmente bonita. Quando percebemos uma flor, vemos aquilo que emergiu como figura. Mas, para compreendê-la, precisamos também perceber de onde ela cresceu. Antes daquela flor existiram terra, raízes, água, estações, decomposição e inúmeros processos invisíveis. Há, metaforicamente, séculos de compostagem sustentando aquilo que agora aparece diante de nós.

Talvez precisemos olhar para as pessoas da mesma maneira.

Aquilo que aparece no presente — uma angústia, uma escolha, um sintoma, uma dificuldade ou uma transformação — não surgiu isoladamente. Existe um fundo sustentando essa figura. Existem relações, histórias, perdas, encontros, ambientes e experiências que foram se acumulando, transformando e, algumas vezes, ainda procurando uma forma de serem assimiladas.

Isso também modifica a posição do terapeuta. O terapeuta não está ali apenas para ajudar alguém a “se descobrir”, como se houvesse uma resposta escondida que o profissional soubesse encontrar. A relação terapêutica pode oferecer perguntas, integração, pausa e companhia durante o processo de descoberta. Talvez possamos expressar essa postura assim: não estou aqui para dizer quem você é; estou aqui para caminhar com você enquanto você descobre.

Há humildade clínica nessa posição. O poder de cura presente na vida e nas relações é maior do que o terapeuta. Reconhecer isso nos conduz a um patamar profundamente existencial: estou aqui, diante de outro ser humano, sendo simplesmente aquilo que sou e oferecendo minha presença profissional nesse encontro.

Nem sempre precisamos fazer tanto ativamente. Algumas vezes, nossa tarefa é permitir que processos que permaneciam no fundo encontrem condições para acontecer em seu próprio tempo. O diálogo com o cliente pode então ser menos orientado pela necessidade de produzir respostas e mais pela curiosidade genuína do terapeuta diante daquilo que está emergindo.

Volto, então, à imagem da compostagem. A psicoterapia também possui seus processos de compostagem. Experiências dolorosas, perdas, contradições e acontecimentos que pareciam apenas restos de uma história podem, com tempo e condições suficientemente favoráveis, transformar-se em um solo a partir do qual outras possibilidades conseguem emergir.

Projeção de Jan Roubal e de seu material durante a conferência Tempo da Terapia.
Registro da conferência “Tempo da Terapia”, com Jan Roubal, em Belo Horizonte.

Isso é especialmente importante quando encontramos pessoas vivendo sofrimentos que parecem maiores do que elas próprias. Nesses momentos, pensar saúde exclusivamente como uma condição individual talvez seja insuficiente. Há também um processo de cooperação na construção da saúde, uma necessidade de reconexão com outras pessoas, com comunidades e com o próprio meio ambiente. Não existimos separados do campo que nos sustenta.

E essa constatação também alcança quem cuida. Terapeutas precisam receber apoio. Precisamos reconhecer nossos próprios limites e abandonar a fantasia de que estamos fora do mundo apenas observando aquilo que acontece com nossos clientes. Somos igualmente atravessados pela existência.

Uma das provocações que levo desse encontro é justamente a possibilidade de deixarmos de perceber o mundo simplesmente como um conjunto de objetos disponíveis para nós. Há uma relação mais ampla acontecendo. As árvores, por exemplo, podem nos ensinar algo sobre o tempo: elas não apressam suas estações. Crescem, permanecem, perdem folhas, recebem novamente aquilo que o ambiente oferece e seguem seus processos.

Essa discussão se torna ainda mais interessante diante do avanço da inteligência artificial. Temos hoje tecnologias extraordinariamente capazes de produzir respostas quase instantaneamente. Mas uma inteligência artificial não faz uma pausa existencial conosco, não nos olha de volta e não compartilha corporalmente o silêncio de uma sala. Isso não diminui suas possibilidades; apenas nos ajuda a reconhecer a especificidade de determinados encontros humanos.

Talvez o risco do nosso tempo não seja somente a ausência de respostas, mas também a presença excessiva delas. Quando toda pergunta encontra imediatamente uma explicação, podemos perder a oportunidade de permanecer diante dela tempo suficiente para que alguma coisa se transforme.

Há perguntas que precisam menos de uma resposta rápida e mais de um lugar onde possam permanecer.

Saio dessa experiência pensando que talvez uma das contribuições mais importantes da psicoterapia contemporânea seja justamente proteger esse espaço. Um lugar em que não precisamos acelerar todos os processos, em que a experiência pode ser assimilada e em que aquilo que ainda está no fundo encontra tempo para, quando puder, tornar-se figura.

Registro e reflexões a partir da conferência “Tempo da Terapia”, com Jan Roubal, durante o I Congresso Internacional de Gestalt-Terapia e IV Congresso Mineiro de Gestalt-Terapia, realizado em Belo Horizonte (MG), em setembro de 2026.

Caio Fábio Martins
Psicólogo · CRP 09/10676
Professor universitário · Mestre e Doutorando em Psicologia

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