TRABALHO · SENTIDO · RESPONSABILIDADE

Sentido, sofrimento e responsabilidade no trabalho: algumas questões que ficaram depois da mesa

Por Caio Fábio Martins ·

Ontem, durante minha participação no I Congresso Internacional de Gestalt-Terapia e IV Congresso Mineiro de Gestalt-Terapia, realizado na UFMG, em Belo Horizonte, apresentei o estudo “Sentido, sofrimento e responsabilidade: aproximações entre Viktor Frankl e a perspectiva fenomenológico-existencial no contexto do trabalho contemporâneo”. A proposta partiu de uma questão que tem atravessado tanto minha pesquisa quanto minha atuação profissional: como compreender o sofrimento no trabalho sem reduzi-lo apenas a fatores individuais ou, no outro extremo, apenas a estruturas organizacionais?

A apresentação partiu do reconhecimento de que as transformações do mundo do trabalho têm produzido impactos importantes sobre a saúde mental, incluindo sofrimento psicológico, esgotamento, perda de significado e dificuldades na construção de projetos existenciais. A intenção foi colocar em diálogo a Logoterapia e Análise Existencial com a perspectiva fenomenológico-existencial, especialmente em torno de três eixos: sentido, sofrimento e responsabilidade.

Participantes da mesa no Congresso Internacional e Mineiro de Gestalt-Terapia.
Registro da mesa durante o congresso, em Belo Horizonte.

A discussão que se seguiu à fala foi, para mim, tão importante quanto a própria apresentação. Alguns colegas levantaram a necessidade de uma intervenção mais robusta do Estado para garantir autonomia e proteção aos trabalhadores, sobretudo em contextos operacionais marcados por menor poder de negociação, maior dependência econômica e menor controle sobre as condições de trabalho.

A provocação é legítima, mas me levou a uma reflexão que considero necessária: até que ponto ampliar a tutela externa produz, de fato, mais autonomia? Na minha leitura, há uma tensão importante aí. Em determinados contextos, proteção normativa é necessária. Mas transformar toda resposta ao sofrimento do trabalhador em aumento de intervenção estatal pode produzir uma contradição: buscar autonomia ampliando justamente a estrutura que decide cada vez mais por ele.

Minha tendência é pensar que há também um caminho que passa pelo recuo da centralização e pelo fortalecimento da responsabilidade concreta de líderes, empresas e trabalhadores. Não como abandono do cuidado, mas como deslocamento da responsabilidade para mais perto de onde a experiência de trabalho realmente acontece.

Isso significa exigir das organizações algo maior do que cumprir normas. Significa compreender saúde mental, qualidade das relações, segurança psicológica, clareza de papéis, desenvolvimento de lideranças e sentido do trabalho como elementos da própria sustentabilidade do negócio. Cuidar de pessoas não precisa ser pensado apenas como custo social ou obrigação ética externa. Organizações mais saudáveis podem reduzir perdas, afastamentos, rotatividade e conflitos, ao mesmo tempo em que favorecem engajamento, permanência e melhores condições de realização do trabalho.

Foi exatamente nesse ponto que a discussão sobre sentido ganhou mais força. O material apresentado defendia que a experiência de sentido no trabalho se relaciona a engajamento, bem-estar psicológico e resiliência, enquanto experiências de vazio podem contribuir para desmotivação e sofrimento. A partir de Frankl, responsabilidade não aparece como culpa, mas como capacidade de posicionamento diante das circunstâncias. A construção de sentido envolve escolhas, valores e propósitos, mesmo quando o sujeito não controla integralmente as condições que o cercam.

Capa do estudo Sentido, sofrimento e responsabilidade, apresentado por Caio Fábio de Souza Martins.
Capa do estudo apresentado no congresso.

Outra questão que emergiu da plateia foi ainda mais fundamental: de que filosofia de base estamos falando quando falamos de trabalho?

Esse ponto me interessa profundamente porque não existe reflexão neutra sobre o ser humano. Toda teoria do trabalho parte, explícita ou implicitamente, de uma visão sobre pessoa, liberdade, responsabilidade, sofrimento, sociedade e finalidade da existência.

No meu caso, reconheço que minha compreensão também é atravessada por uma cosmovisão cristã reformada. Isso não significa transformar a Psicologia em teologia, nem impor uma perspectiva religiosa ao campo científico. Significa apenas reconhecer com honestidade que minha leitura do trabalho parte de uma compreensão específica do ser humano: alguém dotado de dignidade, responsabilidade, vocação relacional e capacidade de responder à realidade.

Essa discussão me parece especialmente importante porque muda a pergunta. Antes de discutirmos apenas como organizar o trabalho, talvez precisemos perguntar o que pensamos que o trabalho é. É apenas meio de sobrevivência? É exploração inevitável? É espaço de produção? É expressão de liberdade? É serviço? É realização? É responsabilidade? É lugar de encontro entre necessidade individual e contribuição social?

Dependendo da resposta, toda a arquitetura das soluções muda.

Por isso, tenho cada vez mais resistência a interpretações que tratam o trabalhador apenas como vítima passiva de estruturas, da mesma forma que rejeito leituras que responsabilizam exclusivamente o indivíduo pelo próprio sofrimento. A perspectiva fenomenológico-existencial permite sustentar uma tensão mais complexa: somos condicionados pelo campo, mas não somos completamente determinados por ele. O sofrimento relacionado ao trabalho pode envolver fatores organizacionais, mas também conflitos ligados aos valores, escolhas e propósitos do próprio sujeito.

É justamente aí que o diálogo com Frankl se torna fértil. Entre estrutura e liberdade, entre contexto e decisão, entre sofrimento e resposta, existe uma pessoa que continua sendo chamada a posicionar-se.

Da mesma forma, existe uma liderança chamada a assumir responsabilidade pelas condições que produz.

E existe uma organização chamada a compreender que cuidar não é apenas fazer campanhas, oferecer palestras ou reagir a crises. Cuidar é estruturar relações, trabalho, metas, processos e liderança de modo que a pessoa consiga permanecer humana dentro do sistema produtivo.

Talvez um dos principais desafios contemporâneos seja justamente este: não escolher entre saúde e resultado, mas compreender que resultados sustentáveis dependem de pessoas capazes de continuar funcionando, criando, decidindo e encontrando algum significado no que fazem.

Minha conclusão, ao final da mesa, ficou menos fechada do que quando comecei — e isso é uma coisa boa.

Saí pensando que a discussão sobre sofrimento no trabalho não será resolvida apenas por mais regulação, nem apenas por mais liberdade individual. Ela exige uma reflexão mais profunda sobre responsabilidade compartilhada, limites institucionais, filosofia do trabalho e maturidade das organizações.

O diálogo entre Logoterapia e perspectiva fenomenológico-existencial oferece uma possibilidade importante justamente porque amplia nossa compreensão da experiência humana no trabalho e abre caminhos para intervenções voltadas à saúde mental, ao desenvolvimento e à construção de relações mais significativas com o trabalho.

E talvez esta tenha sido a principal experiência da mesa: perceber que discutir sentido no trabalho não é apenas falar sobre motivação.

É discutir que ser humano queremos reconhecer dentro das organizações.

É discutir quanta liberdade estamos dispostos a sustentar.

É discutir quanta responsabilidade líderes, empresas, trabalhadores e instituições estão dispostos a assumir.

E, acima de tudo, é discutir de que lugar filosófico estamos olhando para tudo isso.

Caio Fábio Martins
Psicólogo · CRP 09/10676
Mestre e Doutorando em Psicologia
Professor universitário · Consultor em desenvolvimento humano

Material apresentado no congresso

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